sexta-feira, dezembro 22, 2017

Qual o problema com o mulato?

O mulato foi e continua a ser problematizado por carregar a conotação etimológica da mula: um equino geralmente estéril devido o cruzamento de raças biologicamente distintas dessa espécie. Mulato no racismo científico é sinônimo de deformação.
Porém, quando Abdias do Nascimento metaforiza o mulato na figura do capitão do mato ele aponta uma disfunção à nível da consciência do indivíduo no mundo. Aquele que rejeita simbolicamente a si, a mãe e aos irmãos para negar a cultura africana, e, em última instância, a sobrevivência do corpo negro.
O mulato e a mestiçagem são compreendidos no âmbito histórico e sociológico por Abdias. No resgate dos dados demográficos ele levanta como o pardo e o mulato foram utilizados para diminuir o número de pretos ou negros nas estatísticas do país. Mas o exercício dele é abraçar à uma realidade comum às diferentes tonalidades da pele entre os mestiços brasileiros.
Tanto que ele influenciou na atual configuração institucional a categoria negro enquanto junção entre pardos e pretos. Um dos poucos legados que conseguiu fissurar o mito da democracia racial nos discursos e no Estado.
Legado combatido por mulatos que carregam a patologia da brancura, como diria Guerreiro Ramos.
Faceta de um genocídio que se perpetua nos disparos certeiros dos policiais militares, e vai além do extermínio, nos aspectos psicológicos, morais e culturais das vendedoras do Bolinho de Jesus.

sexta-feira, novembro 17, 2017

Café com Canela: um cinema em busca do público


No desenrolar do longa Café com Canela, Margarida, interpretada por Valdinéia Soriano, busca o reencontro com o prazer de viver e descreve as memórias de entrar na escura do sala de cinema, sentir o cheiro do estofado, e mergulhar em estórias que refazem sua experiência com o mundo.

O filme, e, a cena, é uma síntese do encontro com o público. Não a toa, Café levou o prêmio do júri popular na 50º edição do Festival de Brasília, e no XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema em Salvador, ao se aproximar de um conjunto de obras identificadas com o cinema negro, responsáveis por enfrentar o vazio das narrativas nos festivais nacionais, que pouco chegam ou pretendem chegar na maioria da população.

Na autoria artística, a sua inclusão no âmbito do cinema negro está na corporificação de uma das integrantes da dupla de diretoras, Glenda Nicácio, no elenco, e suas perfomances a cerca dos conflitos humanos.

Já a simbologia da cultura negra é de um teor clássico e inerente na trilha sonora, na paisagem, religiosidade e pequenos hábitos das cidades históricas de Cachoeira e São Félix, no Recôncavo baiano. A direção de arte, de Glenda, consegue traduzir este universo sem exageros metódicos nas cores das paredes, na disposição e adereços que compõe a cena.

O roteiro é de um melodrama com pitadas de neorrealismo, sob uma estrutura cambaleante, superada na interpretação segura de Valdinéia, atriz de longa trajetória de um grupo de teatro negro, o Bando de Teatro Olodum, e premiada como melhor atriz no Festival de Brasília. O seu papel não fica só, nem mesmo precisa se impor, ao se comparar o histórico de narrativas que excluem ou subjugam a capacidade de ação da mulher negra. O dilema da sua personagem, refém da solidão e loucura após uma tragédia, é enfrentado com a ajuda e um nível de coprotagonismo da jovem Violeta, interpretada sob um naturalismo leve e apaixonante de Aline Brunne, a que tivemos a sorte de descobrir-se enquanto atriz durante a criação do filme.

Tão expressivo quanto as duas, é o sorriso no olhar da avó de Violeta, Roquelina, encarnada por Dona Dinalva, uma sambadeira e integrante da irmandade da Boa Morte; bem como na autonomia da sua amiga Cidão (Arlete Dias).

São as mulheres as protagonistas dos segredos e do curso da vida em Café com Canela. São elas, e suas atrizes, que fogem de uma leitura imobilizante da solidão da mulher negra, e manejam uma performance afetiva, típica do cinema negro no feminino, conceituado por Edileuza Penha de Souza (2014). Por sinal, durante o debates do filme, tanto em Salvador, quanto em Brasília, foi possível perceber a contribuição das atrizes e da diretora para superar as imperfeições do roteiro.

Mas a presença masculina nas suas vidas não é apenas pelo vazio ou coerção que tentam imputar como papel do homem negro. Há uma possibilidade de solidariedade, presente no marido de Violeta, Paulinho (Guilherme Silva); e no médico Ivan que revisa a infeliz domesticação do homossexual negro, no corpo do único ator “global”, Babu Santana. 

Ambivalência
Café com Canela carrega um dilema para o cinema negro nos postos principais de propriedade intelectual, pois Glenda Nicácio divide a direção com um branco, Ary Rosa, e o mesmo também é o autor do roteiro. Seja por Zózimo Bubul, o Dogma Feijoada, e a maioria do ciclos internacionais do cinema negro, corporificar a direção é o ponto onde o diálogo com o Outro não está disposto a concessões. Porém, em um universo escasso de diretoras negras, não dá para secundarizar a contribuição de Glenda. Mais ainda, temos um caso que nos faz repensar o poder intransponível da direção, o seu modelo de autoria individual, e como isso pode enfraquecer o aspecto coletivo do cinema negro.

Nesta obra, a cultura negra consegue transformar em algo sublime a experiência de terror do passado e do presente, por meio de símbolos, performances e prioritariamente fluxos de reconhecimento entre pessoas com uma história em comum (GILROY, 2012). Fazer essa operação de uma dupla consciência, ambivalente, dentro da indústria audiovisual, uma das maiores expressões do domínio brancocêntrico moderno, é algo inerente a qualquer ciclo ou integrante do cinema negro no mundo.

Também é inerente ao cinema negro, e qualquer outro movimento cinematográfico, imprescindir do elemento político. Nas palavras de Viviane Ferreira, é o aspecto político, e não a meritocracia que possibilita às mulheres negras conseguir realizar filmes de longa metragem no Brasil. Viviane fala com a propriedade de ser a diretora do renomado curta Dia de Jerusa (2014), em processo para se transformar no primeiro longa de ficção dirigido exclusivamente por uma mulher negra, desde que Adélia Sampaio filmou Amor Maldito (1984).

Porém, Café com Canela, prioriza politicamente como lugar de fala responsável por sua produção o curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB), em Cachoeira, algo explicitado na fala de abertura de Ary Rosa no XIII Panorama em Salvador.

O curso da UFRB foi criado em 2009, e, de lá para cá não foge do quadro de ausência de professores negros e negras no nível superior brasileiro. Tem um corpo docente respeitável, liderado por Amaranta Cesar, uma conhecedora do cinema africano, mas não existe um Osmundo Pinho ou uma Ângela Figueiredo, professores da UFRB que colocam a universidade na rota transatlântica mais avançada do pensamento negro e descolonial.

O posicionamento do curso no fluxo do cinema negro é primordialmente a partir dos alunos, e tem como marco o surgimento do coletivo Tela Preta. Coube a eles realçar uma agenda política, uma literatura, e um modo da fazer, inclusive por ousar na ficção em um curso focado no documentário, por meio de Cinzas (2015), de Larissa Fulana de Tal, e agora com O Som do Silêncio (2017), de David Aynan. Duas obras dotadas de complexidade suficiente para compor qualquer narrativa densa sobre o cinema negro contemporâneo no Brasil. Diga-se de passagem, Café com Canela deixa rastros da influência do Tela Preta ao utilizar o ator protagonista de Cinzas, Guilherme Silva, e contar com a participação de uma das suas integrantes, a jovem e já experiente Thamires Santos, entre as assistentes de direção e produção. 

A exibição  
A experiência mais instigante do cinema negro é o ciclo dos race movies nos EUA, entre os anos 1910 e 1940, quando Oscar Micheaux foi ícone de um cinema coerente na linguagem, na autonomia da produção, e, por fim, no controle ou capacidade de explorar a exibição.

Nos resta agora finalizar ao falar da exibição, processo chave para chegar até um público negro que tem fortalecido a obra nos festivais. Café com Canela tem garantida a exibição em uma televisão pública aberta, a TVE-BA, enquanto contrapartida do edital que o credenciou, realizado pelo Instituto de Radiodifusão Pública da Bahia (Irdeb), com aporte majoritário do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Fora a televisão, uma janela de significativo alcance popular, Café com Canela, ainda é restrito a festivais, e o perfil da produção tende a caminhar por salas de cinema controladas por grupos seletos que veem as plateias estagnarem juntamente com o vazio das suas obras. Hoje, o cinema negro se tornou necessário para a sobrevivência deste círculos, e não a toa ganha prêmios e mais prêmios, a exemplo da farra na X Janela Internacional de Recife que escolheu Deus (2017), de Vinicius Silva, como melhor filme pelo júri oficial.

No Festival de Brasília, quando fez sua estreia, Café com Canela foi tragado por uma estratégia da branquitude: continuar a discutir a questão racial a partir do seu olhar, nesse caso, o paternalismo e a tentativa de silenciamento presente nas imagens e na repercussão de Vazante, dirigido por Daniela Thomas.

Já a exibição no Panorama em Salvador, o público foi proporcionalmente menor e embraquecido ao se considerar o estrondo no verão de 2016, quando as salas da cidades encheram para o lançamento de Òrun Àyiê: a criação do mundo, de Cintia Maria e Jamile Coelho, e as exibições de estreia na cidade de Cinzas (2015); Dia de Jerusa (2014); Verão dos Deuses (2015), de Eliciana Nascimento; e Kbela (2015), de Yasmin Thayná.

O local do Panorama, o Espaço Unibanco - Glauber Rocha, é sintomático do elitismo colonial baiano-brasileiro. Foi onde o antigo Cine Guarany se transformou na primeira, e talvez única sala fomentada pela Embrafilme devido uma luta dos cineastas locais frente o misto de fechamento e controle internacional sobre a exibição adensada nos anos 1970 e 1980. O prédio continua a ser público, mas segue um traço pop cult desde que ingressou no circuito Itaú-Unibanco. Hoje vive vazio, um corpo estranho para os transeuntes e habitantes do Centro, e, mesmo que não queira, dialoga com o projeto de higienização da região, a começar pela retirada dos comerciantes da vizinha Rua do Couro.

Durante um sobrevoo no último Panorana, o público parecia mais interessado na festa do terraço, e a repercussão sobre a maioria dos filmes era desanimadora. A sensação foi de respiro quando o cinema negro deixava seus rastros nos curtas de 2017: Nada, de Gabriel Martins; Travessia, de Safira Moreira; O Som do Silêncio, de David Aynan; Pela Suja Minha Carne, de Bruno Ribeiro; e Na missão, com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia, capaz de cortar o silêncio da sala com soluços. Ou quando um cinema de assunto negro respeitável se apresentou nos longas documentais: Diários de Classe, de Maria Carolina e Igor Souto; e Quilombo Rio dos Macacos, de Josias Pires.

Café com Canela, e o conjunto do cinema negro, tem a possibilidade de fugir do exclusivismo deste ambiente de recepção, que flutua entre salas de arte e complexos multiplex. 

O Encontro de Cinema Negro Zózimo Bubul, no Rio de Janeiro, e as dezenas de mostras, seminários e festivais, como a I Mostra Competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio, em Brasília, são alguns dos canais que se relacionam com todas as formas de construção comunitária e diasporica dos nossos territórios, e principalmente com o público. Um cenário não contabilizado no receituário da Ancine, mas que permite as Margaridas encontrarem um ambiente de afeto e liberdade.  

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GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Candido Mendes, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2012.

SOUZA, Edileuza Penha de. Cinema na panela de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e identidade/ Tese (doutorado) - Universidade de Brasília, Programa de Pós -Graduação em Educação, 2013.

quinta-feira, julho 30, 2015

Cinzas: onde está a mulher negra?



Exibido pela primeira vez no Latinidades, Cinzas, dirigido por Larissa Fulana de Tal, reconstrói o recorrente debate sobre as relações entre homens e mulheres negras. Adaptado do romance de Davi Nunes, a obra se livra da prisão do feminismo branco, e seus esteriótipos do homem negro: violento, lúdico, ludibrie e, ou, ludibrioso. O cotidiano de um jovem negro em Salvador, "nova classe média", é acompanhado por suas reflexões e irritação.

A casa com geladeira, pintura e fogão novo, não passa de um cubículo. Pega o ônibus cheio, ouve no rádio as notícias sobre a chacina do Cabula. Chega no trabalho, um call center. Salário, mínimo. Não é pago em dia. A chefe branca lhe assedia. Vai para a faculdade, curso nas humanas, se depara com um conhecimento inverossímil.

Onde está a mulher negra? Não apenas na diretora, é a esposa do personagem, ignorada nas suas reflexões, e no mesmo cotidiano opressivo. O monólogo é falso, egoísta. A crítica ao homem negro vai para outro patamar. Falei a Larissa após o filme: "O filme me tocou, mas tenho um segredo que não consigo acessar". Ela explicou sobre o apagamento, e sua inspiração na conversa comum entre as minas. E foi além, muito além: "É um filme sobre relação entre duas pessoas". A diretora e sua obra transcende o véu. Atingem a universalidade negada a nossa experiência.

Parte chave na reinvenção do audiovisual brasileiro esteve presente no Latinidades:  Yasmin Thayná​, Everlane Moraes, Thamires Santos, Viviane Ferreira e Janaína Oliveira. Diretoras, roteiristas, produtoras, pesquisadoras. A sensação é estar sentado na esquina da história, e desta vez não vai ter como silenciar.

A elas e todas as mulheres negras latino-americanas e caribenhas, parabéns. O dia é de vocês.

quarta-feira, julho 01, 2015

30 de junho: um dia de vitória contra o neocolonialismo e racismo



O ponto mais importante na coletiva de Dilma no último dia 30 de junho foi reconhecer que Brasil e EUA têm em comum a experiência com a escravidão. Não se trata de um acaso colonialista, e sim marca na constituição de dois estados-nação. Ambos, só podem discutir qualquer modelo de democracia tendo isso como pedra fundamental.

Por isso, reconhecer a força desta nefasta instituição é chave para desnudar a sincronia entre o neocolonialismo expresso na repórter da GloboNews e o fascismo liderado por Eduardo Cunha na sessão de ontem na Câmara dos Deputados.

No caso brasileiro, é recorrente vir de parcela majoritária das nossas elites uma suposta inferioridade do país, e consequentemente do seu povo. Nessa lógica, somos incapazes para disputar as grandes narrativas históricas. E quem tem que pagar por isso? A ferro e fogo aqueles que são tratados como a fardo do nosso atraso: o povo. Este povo tem cor predominante: preta!

Não por acaso esses discursos retrógrados se exacerbam quando a população negra se organiza de forma mais contundente no país. Enquanto os partidos se dilaceram, e os modelos etnocêntricos de movimentos sociais também, mais uma vez os laços de solidariedade entre a população negra se fortalecem para enfrentar essa ofensiva, e pautarem o discurso no parlamento.

ps: um salve para Orlando Silva (PCdoB-SP) e Benedita da Silva (PT-RJ). eles fizeram os discursos mais comoventes e articulados da noite.

quinta-feira, maio 07, 2015

O grande mito nos 50 anos da Globo



O mito mais forte nestes 50 anos da Globo é que tudo de bom ou mesmo popular no audiovisual brasileiro é derivado dos seus esforços. Em partes, este mito é alimentado pela formação dos comunicadores. Não tive uma disciplina na graduação de história da imprensa, televisão ou cinema no Brasil, muito menos a relação da produção audiovisual com as demais expressões artísticas.

Infelizmente, não sabemos o papel da Tupi, Excelsior, teledramaturgia cubana, circo, teatro e até mesmo do cinema na nossa cultura audiovisual. Beto Rockfeller e Pantanal, marcos das telenovelas nacionais, são apenas alguns exemplos que foram apropriados e formatados no padrão Globo devido o modelo de concentração adotado.

Engolimos esta situação como algo dado, inexorável, e, infelizmente, se reproduz nos dias atuais com atuação conjunta da Globo Filmes, Globosat e Tv Globo. Muitos se iludem que sem a expertise, seja artística, seja comercial, deste conglomerado, não teremos uma expressão audiovisual potente no país.

Isso se reproduz em grande medida na Ancine hoje, e sua retração em democratizar os recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. Aliás, Manoel Rangel saiu em defesa da Globo recentemente.

E assim, mais uma vez na história, a família Marinho assume um protagonismo no país calcado no apoio estatal e extrema concentração, permitindo ocultar e se apropriar da diversidade cultural no país, num momento que a multiplicidade de plataformas e condições tecnológicas possibilitam ir muito além.

sábado, abril 18, 2015

Idelber Avelar, o punitivismo, aliados ou adversários.

Debret retrata o carnaval

Meses atrás foram publicizadas denúncias a Idelber Avelar por utilizar seu prestígio intelectual para coagir sexualmente mulheres, inclusive uma jovem com menos de 18 anos. Até então, ele era o intelectual mais ativo no meu Facebook, e provavelmente de muitos outros.

Eis que estes dias chega no e-mail um aviso por meio da Academia.edu para debater um artigo de Idelber sobre Gilberto Freyre: provavelmente, o intelectual brasileiro mais acusado por fortalecer nosso racismo estrutural, em especial por reforçar violações sexuais às mulheres negras. No texto publicado em 2012, Idelber segue uma recepção responsável por defender "o mito do mito da democracia racial" -  a mesma de Hermano Vianna e Antônio Risério.  Recepção essa, opositora à gestada nos EUA, que teve como um dos seguidores Abdias do Nascimento, curiosamente, como defensor do projeto da democracia racial entre os anos 40 e 50.

Não vou me alongar na resenha, mas em síntese, ele trabalha em cima das contradições de Freyre, e busca retomá-las numa leitura sobre raça e sexualidade com foco nas relações entre homens negros e mulheres brancas na sua famosa trilogia. Relações essas, tratadas no misto de "espanto" e "censura".

A divulgação do texto por Idelber parece ser revestida de intenção ou subjetividade de debater mais às suas ações do que o próprio Freyre. Tentarmos reaceitar sua contribuição para pensar o Brasil hoje, mesmo que permeada de intensa contradição com sua práxis. No fundo, assim como tenta fazer com a recepção da obra de Freyre, seu objetivo é atingir um patamar que o adocique às denúncias.

Imagino que para muitas mulheres, e homens, o silenciamento deve ser a melhor resposta às suas supostas violações. Particularmente também convivo diariamente com textos circulando recheados por elogios de determinado autor, mas a que passei por experiência extremamente opressora e racista. Bloqueei o compartilhamento dos seus textos no Facebook, mas não impede de receber suas informações, inclusive por alguns que sabem do ocorrido e o acham o máximo.

Não foi uma "situação", e sim um processo envolvendo a Justiça, a que fui na teoria vencedor, devido o contexto em tratar questões raciais no judiciário brasileiro, porém, perdedor, no sentido que não tive as respostas desejadas, por interferência do juiz favorável aos acusados - algo que descobri um nível de gravidade depois-, e também por aceitar o "acordo" e recusar levar a diante em outras esferas judiciais, caso contrário poderia sentenciar o escracho de forma material e imaterial dos réus.

Ao longo dos últimos oito anos, preferi o silêncio sobre o tema. E infelizmente, o silêncio, não tenho dúvidas, abriu brechas para os pares do acusado atuarem em diversas frentes para deslegitimar a denúncia, inclusive com tentativas de descrédito pessoal e político. Todavia, não me arrependo profundamente pelo silêncio, porque tenho dificuldades de lidar com a individualização envolta no punitivismo, principalmente àqueles que convivem em espaços e lutas comuns.

O debate sobre o punitivismo ganhou força após a lei do feminicídio, e suas consequências objetivas a grupos historicamente discriminados. Agora, precisa ser alastrado, a começar pela dificuldade de obtermos respostas na tipificação do racismo enquanto crime inafiançável - a não ser com o segurança do shopping.

O punitivismo também está em outro parâmetros, e se faz nas recorrentes acusações entre militantes das esquerdas, movimentos negros e feministas - só não coloco sindical, Paulinho da Força passa de qualquer limite.  

Sim, estamos num momento político a que tática e estratégia equivocada de muitos, inclusive na práxis pessoal, dificulta determinar os aliados, seja por machismo ou racismo latentes, o burocratismo senil desde juventude, a incapacidade de autocrítica e aburguesamento das lideranças políticas, o convívio cínico com a corrupção, o patriarcado branco das classes médias de esquerda, o feminismo branco, a arrogância daqueles que se acham mais de esquerda e racionais que os outros, e o essencialismo racial.

Todas essas questões causam, entre nós, profundo desconforto e dificuldade para uma suposta unidade entre setores "progressistas" no país em momento extremamente delicado e muito além da manutenção de governos.

Ao mesmo tempo, todos esses desconfortos não podem ser tratados como atraso, esquerdismo, ou qualquer coisa nesse sentido. Eles demonstram uma legitima ansiedade por novas transformações comportamentais e políticas, sejas no Estado ou na sociedade civil.

Por isso, se alguém esperou até aqui alguma resposta para o tratamento a Idelber Avelar, Gilberto Freyre ou ao meu algoz, se deu mal. Porque não tenho certezas sobre esses assuntos. Tenho a convicção que estes temas precisam ser debatidos sem tabus. Mas como fazer isso? Não sei.

sábado, setembro 20, 2014

Aranha: estratégias da violência para enfrentar o racismo


Judicializar o racismo é um caminho fundamental para combatê-lo, mas não o único. Longe de ser especialista na área, sei que as diversas varas, tribunais e nuances judiciárias não tem elementos, seja a nível político ou jurisprudência para captar situações como a ironia contra Aranha por parte de torcedores e imprensa. Também não tem elementos para enfrentar casos de racismo institucional em ambientes de trabalho. Nesses casos, o que fazer?

Nesse sentido, até agora nenhum outro pensamento se faz mais presente que o de Frantz Fanon. Sob o desejo de ser reconhecido enquanto indivíduo, “você” coloca a vida em risco e ameaça o outro. Não se trata de apologia, muito menos reproduzir uma violência a que esperam do preto, ou preta - um risco a que muitos de nós caem. Aquela que o tenta transformar em "bárbaro", ampliando a negativa à sua existência. Aranha poderia dar um tapa ou palavrão aos repórteres, e seria imediatamente repugnado por quase todos. Sicrano, politicamente correto, idoneidade inquestionável, será o primeiro a dizer: "mas..." A ponderação num contexto desfavorável é o suficiente para descontextualizar que ali é uma estratégia de sobrevivência. É apenas uma variação do que fez Felipão ao dizer que Aranha fez uma "esparrela" ao fazer o que tem feito.

Pois bem, continuemos com a violência, essa enquanto caminho presente para não dar mais um passo atrás. Como podemos fazer para sair do ciclo vicioso? Aranha já nos ensinou bastante ao fazer as câmeras registrarem muitos atos. Agora é seguir em frente. Que tal levantar de um bar, sair de um loja ou dar as costas, toda vez que alguém aparecer com a camisa do Grêmio? Infelizmente, enquanto um torcedor não a utilizar com um símbolo que o caracterize como antirracista, será identificado como tal. Podemos fazer memes com a repórter com seu ar cínico e compará-la ao sacarmos de um carrasco? Ou relacionar a Arena do Grêmio à um campo de concentração dos moldes nazistas, que por sua vez foram criados na Namíbia sob colonização alemã?

Ha, por favor, sem papinho de ser contrário ao linchamento, porque não sabe o que é linchamento. Ninguém vai assassinar nem fisicamente, nem moralmente um racista. O que se faz é buscar lhe retirar da sua realidade natural, não humana e racista: “O único método de ruptura com este círculo infernal que me reenvia a mim mesmo é restituir ao outro, através da mediação e do reconhecimento, sua realidade humana, diferente da realidade natural. Ora, o outro deve efetuar a mesma operação”. Fanon em "Peles Negras, Máscaras Brancas".